“Sempre que podemos nos conectar a outros podemos mudar coisas”


Imagem: André Lemos

“Talvez estejamos vendo o surgimento de uma sociedade comunicacional planetária e não apenas informacional”. O sociólogo brasileiro André Lemos conheceu “as antigas comunidades virtuais no começo da década de 1990, anônimas, temáticas, abertas, sem empresas comerciais por trás”. Talvez por isso, no seu discurso, abundam conceitos como a “serendipidade”, “empoderamento cidadão” ou “conversação”. André Lemos, autor  do blog Carnet de Notes e diretor do GPC – Grupo de Pesquisa em Cibercidade da Universidad Federal de Bahia, receia das etiquetas que tentam definir o novo mundo. Não gosta de conceitos de ‘mídias sociais’ (“a mídia sempre é social”) ou Revolução 2.0. Também prefere não abusar de conceitos como ‘Cidades P2P’ ou ‘Cidade Open Source (“devemos usar só para ilustrar mas não para compreender os fenômenos”).

André Lemos,  fundador do Centro Internacional de Estudos Avançados e Pesquisa em Cibercultura da UFBA, prefere sugerir uma nova união de objetos e pessoas conectados,  na linha da Teoria do Ator Rede de Bruno Latour. André Lemos é um dos pioneiros na pesquisa das chamadas mídias locativas: comunicação multimídia através de dispositivos móveis e tecnologías GPS, Wi-Fi, GIS, RFID...

Bernardo Gutiérrez (@bernardosampa), fundador da Futura Media, enviou uma entrevista para André Lemos por mail. Algumas perguntas foram poupadas, porque o entrevistado considerou já ter respondido. Mantemos todas as perguntas originais. A entrevista foi enviada para André Lemos antes de ser publicada para incentivar a máxima transparência e rigor do processo.

O Centro Internacional de Estudos Avançados e Pesquisa em Cibercultura da UFBA nasceu quando a ‘cibercultura’ era um termo para definir todo o que acontecia no ciberespaço. Como tem evoluído o Centro nas últimas mutações da Internet? Pode falar de alguns dos projetos mais recentes do Centro?

O Centro Internacional de Estudos Avançados e Pesquisa em Cibercultura da Faculdade de Comunicação da UFBA (Ciberpesquisa) foi criado em 1996, sendo pioneiro nos estudos sobre cibercultura no Brasil. Hoje o centro foi transformado em grupos de pesquisa divididos em duas linhas de pesquisa do Programa de Pós-Graduação da FACOM/UFBA: Jornalismo Online, Democracia e Internet, Interações Sociais Online e Cibercidades. Os grupos são autônomos e atuam na ponta das suas respectivas discussões, produzindo pesquisas e formando pesquisadores em níveis de mestrado e doutorado. O meu grupo (GPC – Grupo de Pesquisa em Cibercidade ) está estudando as mídias locativas, a internet das coisas e as Smart Cities. O que nos interessa é a discussão sobre os processos de espacialização em jogo com as novas mídias digitais, as transformações das práticas sociocomunicativas no espaço urbano.

Têm algumas pessoas que ainda acham que o mundo virtual é uma coisa radicalmente diferente ao mundo real. Porém, cada vez temos mais pontes entre o mundo ‘on’ e ‘off’, entre redes e territórios. Que mudanças tem observado nos últimos anos da Internet nessa direção?

Não dá para pensar nessa separação. Nossas ações tomam diversas direções e é apenas com um raciocínio muito simplório e forçado que podemos separar essas dimensões da realidade. As relações estão cada vez mais dependentes do que fazemos com as tecnologias digitais – email, Twitter, Facebook, YouTube, blogs…Todas essas ferramentas fazem parte do nosso dia a dia. Não dá para pensar em separação da vida na internet e da vida fora da internet. Só há uma vida e, na verdade, a “internet” é um conceito muito abstrato. Ela não existe sem os lugares que a compõem. E os lugares são sempre compostos por atravessamentos de fluxos, são sempre híbridos, constituídos por dimensões materiais, imaginárias, comunicativas. O atual e o virtual sempre se entrelaçam nos lugares. E isso desde sempre. Mas quando falamos de internet, falamos de um “espaço” abstrato; na realidade de conexão de redes telemáticas ao redor do planeta oferecendo informações e serviços os mais diversos. Mas o que ela é efetivamente vai depender do que é atualizado a cada momento pelos ações de humanos, objetos, máquinas, softwares, dados… O que fazemos, ao nos conectarmos a um dos “lugares” da internet, é interconectar territórios: informacionais (sobre o conceito de “território informacional” ver meu Post—Mass Media Functions, Locative Media, and Informational Territories: New Ways of Thinking About Territory, Place, and Mobility in Contemporary Society.), culturais, identitários, políticos… usando, por exemplo, o celular na padaria, acessando o Twitter na fila do supermercado, checando um endereço nos mapas digitais, atualizando os softwares de redes sociais com os amigos, enviando um video de um evento para o conhecimentos de outros… Só há interrelação entre as dimensões sociais, imaginárias e infocomunicacionais. Os exemplos são inúmeros. O difícil é encontrar a divisão pura, encontrar algum lugar em que o entrelaçamento dessas dimensões territoriais (simbólica, informacional, subjetiva, corporal, identitária, geográfica) se desfaça, evitando o híbrido ou o online separado do offline. Transitamos por lugares que estão sempre interconectados.

Martha Gabriel fala de ‘cibridismo’, uma nova esfera onde o ‘on’ e o ‘off’ se misturam. Como estão modificando o nosso comportamento os celulares, tablets e dispositivos com conexão?

As mídias locativas permitem que as pessoas acessem, produzam e distribuam informações, em mobilidade, a partir dos lugares do espaço urbano. Não é informação que chega e vai para uma ‘Matrix” lá em cima, mas informações que fazem sentido aqui embaixo e agora. As pessoas estão buscando, com essas novas mídias, o que sempre buscaram: fazer sentido. A relação local, de proximidade, identitária, da memória, é isso que faz sentido. A dimensão social é locativa (ver meu manifesto sobre essa dimensão aqui). No primeiro momento da internet, navegar em um mundo de dados e acesar coisas distantes era a única coisa a fazer. Isso é maravilhoso e continuamos a fazer isso. Mas agora, estamos na fase de hiperlocalização da informação, consumido, produzindo e distribuindo informações em mobilidade, sobre os lugares por onde passamos ou onde vivemos. Isso se deu em função da potência e da facilidade de acesso aos dispositivos móveis e as redes sem fio (3G, Wi-Fi). As mídias locativas (tecnologias e serviços informacionais baseados em geolocalização) permitem ancorar a informação e as relações sociais em lugares precisos. Saímos da informação genérica do abstrato ciberespaço e passamos a valorizar a informação hiperlocalizada, acessada, produzida ou distribuída em mobilidade. O espaço urbano volta a ser o palco desse teatro, contrariando os mais apressados que projetaram o fim das cidades, a desterritorialização total da vida em um espaço abstrato, virtual e perigoso. Ora, o que vemos hoje são pessoas se deslocando com potência informacional produzindo discursos os mais diversos e multimidiáticos sobre seus lugares. Da utopia do ciberespaço passamos a “topia” informacional locativa e móvel. Ainda estamos em sua fase inicial, mas já é muito interessante ver com as mídias locativas e móveis permitem que pessoas, antes apenas leitoras de suas cidades, possam falar dos problemas urbanos, postar um video de denúncia, produzir narrativas sobre o seu bairro, exercitar a construção de cartografias colaborativas, articular manifestações para derrubar regimes autoritários… Mas há muito o que fazer ainda. Podemos agora, mesmo que em potência, ler de outra forma e escrever de forma eletrônica sobre o espaço em que vivemos. Isso é muito interessante.

A industria digital, principalmente a cultural, ainda fica alertando sobre os perigos dos ‘downloads’. Parece que não entenderam que a maior revolução da Internet é o ‘upload’. Muitas pessoas subindo, compartilhando e remixando conteúdo. Por que não enxergam esse lado?

Considero que os três princípios fundamentais das diversas práticas da cultura digital são: a possibilidade de emissão aberta e livre, a interconexão dessas vozes e a reconfiguração cultural. Ora, sempre que podemos falar livremente, nos conectar a outros podemos mudar as coisas. É assim com blogs, com YouTube, com cartografias colaborativas, com redes sociais móveis como SMS e Twitter…Só há perigo de “uploads”, como você diz, em regimes totalitários. Os regimes democráticos devem saudar essas possibilidades por justamente fortalecer a democracia ou o que os gregos chamavam de “isogonia”. A possibilidade de conversão se ampliou e talvez estejamos vendo o surgimento de uma sociedade comunicacional planetária e não apenas informacional. Acho que as mídias de massa são mídias da informação (um emissor que passa informações para a massa de leitores, ouvintes, espectadores). As novas mídias permitem a produção e emissão de informação sem constrangimentos (em sociedade livres e democráticas, claro), a troca bidirecional e mais horizontalizada, a conversação, o princípio mais importante da comunicação. Gabriel de Tarde chamou a atenção para a importância da conversação no seu Opinião e as Massas no começo de século passado. Acho que estamos vendo essa esfera comunicacional se expandir com a internet (ver o meu Nova Esfera Conversational).

 Como está modificando, como vai modificar a computação ubíqua a vida de nossas cidades?

Estamos na fase das mídias móveis e da hiperlocalização e também na era da Internet das coisas onde objetos estarão cada vez mais atuando na internet, tomando decisões com uma participação mínima do agente humano. Estamos caminhando para uma interconexão global de objetos e de monitoramento de movimentos de coisas e pessoas. Hoje há cerca de 6 objetos conectados para cada humano conectado à rede mundial de computadores. Teremos assim dois cenários a curto prazo. O primeiro é o do clássico Big Brother, onde esses objetos servirão apenas à automação industrial e a transparência total (Baudrillard) da vida quotidiana. Os gadgets vão tomar conta dos processos infocomunicacionais das nossas casas e cidades (o pesadelo é se transformar um pouco como a casa do Meu Tio, no filme clássico de Jacques Tati), onde o rastreamento de pessoas e objetos servirá para o controle, monitoramento e vigilância comercial, publicitário, mercadológico, político e policial. O segundo cenário é aquele em que os objetos podem ser usados para contar histórias, deles e dos seus usos, trocar informações com outros, reforçar a memória social e coletiva, ajudar na construção de uma cidade onde as pessoas participem mais da vida comum, nos ajudar a saber mais sobre os processos de trabalho na origem dos objetos e o uso dos recursos do meio ambiente para produzi-los. Assim, a colaboração e o compartilhamento de informação poderão revelar mais sobre as trajetórias dos objetos e sobre nossas relações com eles. Há, consequentemente, uma dimensão política importante aqui, ou o que Bruno Latour chama de “parlamento das coisas”, ou seja, trazer os objetos, as “coisas” às “causas”, ao debate e à discussão. O primeiro cenário é o da industrialização, automação e centralização. O segundo é o da emancipação e da construção de uma vida social mais consciente dos seus problemas (técnicos, ambientais, culturais, sociais…). Na realidade, não acredito que tenhamos um cenário ou outro, mas tensões entre esses dois cenários em que o futuro vai ser decidido. Tudo está aberto. Devemos fazer um esforço para revelar as redes (me refiro às associações entre os agentes, e não à estrutura dos computadores) que se escondem nas diversas relações entre humanos e não-humanos, como nos ensina a Actor-Network Theory (ANT). As novas tecnologias podem nos ajudar a revelar essas redes e abrir “caixas-pretas” (processos, produtos, conceitos, estruturas estabilizadas), podem nos ajudar a criar visualizações dessas redes que ampliem o debate, produzam controvérsias e discussão e, assim, enriquecer a dimensão política.

Tem uma nova onda de arquitetos e urbanistas mais interessados nos espaços, nas relações humanas nos espaços urbanos, que na construção de edifícios. Estamos chegando na era do ‘space making’ e no final da arquitetura espetáculo?

Não sei. Acho que esse sempre foi o trabalho dos arquitetos: pensar nos processos de espacialização, ou seja, nas relações entre humanos e não-humanos (as coisas e objetos) na produção do espaçamento. O lugar só existe na tensão entre lugares e coisas. Ele não é aquilo que contem coisas, mas a rede que se forma na relação entre as coisas fixas e em movimento. Assim, tudo que tem sido feito para pensar esse “espaço-rede” me interessa pois coloca ênfase no lugar, única dimensão “real”, como falei anteriormente. Não vejo o fim da arquitetura espetáculo, mas há iniciativas interessantes que pensam os processos comunicativos em meio à constituições do espaço. Penso na arquitetura líquida de Novak, nos trabalhos de Koolhaas, nas análises do geógrafo Nigel Thrift… No Brasil, gosto do trabalho do arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha e de suas aberturas para relações com o exterior, com a comunicação entre os espaço…

Me interessa bastante o conceito de Sentient ID (identidade digital). Mais ainda, como conectar identidades digitais com espaços físicos concretos. Mais ainda, os aplicativos, redes e novas ferramentas digitais que procuram relações humanas (com conhecidos mas também com desconhecidos) nos espaços urbanos. Que experiências destacaria nessa direção?

Acho que essas experiências podem ser interessantes se forem ações para potencializar o encontro com aquilo que pode nos completar, com o que nos falta. Isso pode ser tanto em uma relação social íntima, como em uma relação comercial ou mesmo no ambiente de trabalho. Não gosto de sistemas de indexação de gostos que fazem com que os usuários encontrem sempre aquilo que estão familiarizados, aquilo que já conhecem, o que gostam ou que encontrem sempre pessoas que estão afinadas aos seus pensamentos. Isso é bom, é útil, é objetivo e é eficaz. Isso é o que faz o Facebook, o Twitter. Mas precisamos ir além disso. Precisamos potencializar a saída do que Eli Pariser chama de “filtro bolha”. Como eu conheci as antigas comunidades virtuais no começo da década de 1990 (anônimas, temáticas, abertas, sem empresas comerciais por trás) fico sempre querendo que sistemas de perfis e mineração de dados possam potencializar a serendipty e que sejam menos o funcional. Mas isso talvez seja mesmo impossível pois era a antíntese desses sistemas atuais. Vemos aqui mais uma dimensão política das identidades digitais, dos perfis virtuais, do Big Data e da mineração de dados.

O conceito de media building de Paul Virilio parece que agora é quase tangível. Muita real time information produzida por objetos conectados mais também por usuários. Para onde vamos? Como vamos lidar com o big data? Será mais importante o big data cidadão empoderante ou o big data da Internet das coisas?

O big data tem duas dimensões: A do Big Brother, traçando perfis comerciais e policiais, monitorando marcas e movimentos de pessoas, controlando e antecipando ações, ou seja, os estudos de “surveillance society” que se faz na discussão sobre visibilidade, dados, pessoas e objetos. Há também o outro lado e que devemos ressaltar. Esse big data permite também ver as conexões, traçar as relações em tempo real, mostrar como as redes, enquanto associações de humanos e não-humanos, se forma e se deforma, aqui e acolá. Isso pode nos ajudar a compreender as associações, a conhecer melhor o social e suas questões principais nesse e em outros domínios. Nesse sentido, as novas tecnologias podem ser ferramentas importantes de visualização inédita das associações e nos ajudar a revelar os perigos e as benesses das redes que constituem as diversas áreas da vida social. Acho que estamos no meio desse turbilhão. Devemos criar condições para o empoderamento do cidadão, como por exemplo, garantir que ele seja dono dos seus dados e assim que ele possa apagá-los, controlar o seu movimento e estoque, torná-los privados ou públicos. Talvez essa seja uma das dimensões políticas mais importantes e atuais na discussão sobre os rumos da cultura digital.

O conceito de Smart City (e a mutação Smarter City de IBM) tem sido criticado por ser bastante vertical, por controlar dados cidadãos de uma forma centralizada e por não abrir os dados. O que deveria melhorar na gestão das chamadas cidades inteligentes? 

Conheci de perto a experiência do maior projeto mundial nesse domínio que é o Centro de Operações Rio (COR), ligado a prefeitura da cidade do Rio de Janeiro. O sistema monitora todos os principais aspectos da cidade em tempo real. Para os administradores e gestores municipais é muito importante ter essa visão global e ter dados em tempo real para tomar decisões que possam fazer com que a cidade funcione (luz, água, obras, trânsito, acidentes, escolas, postos de saúde, ambulâncias…tudo é monitorado). Não acho que a intenção, nesse caso, seja monitorar e controlar os cidadãos. O sistema está construído para ajudar os administradores a melhorar o fluxo de coisas e informações e os diversos serviços na cidade. Isso dito, as críticas são pertinentes já que não podemos delegar a gestão da cidade a sistemas informacionais, não podemos simplesmente confiar na sua funcionalidade ou garantir que os dados não serão usados contra os cidadãos, ou que dados secretos não serão utilizados para servir a interesses políticos ou de empresas. Esse sistema permite a produção de dados importantíssimos para o controle social e deve ser transparente na sua dimensão digamos, material (dados disponíveis para todos, já que gerados por todos que usam a cidade) e política (que projeto está por detrás dessa gestão, quais os interesses em jogo…). Assim, é fundamental que haja transparência dos dados e das políticas que estão por trás desses sistemas de Smarter Cities. Da mesma forma que ele torna tudo visível e transparente, ele também tem que ser visível e transparente para os cidadãos. Não se trata apenas de gestão urbana, mas de uma política da informação. Por exemplo, no caso do COR do Rio, seria muito interessante se as pessoas pudessem também acessar o sistema e ter conhecimento dos dados gerados nesses sistemas. Isso não acontece. Há apenas informações via Twitter – forma de diálogo com os cidadãos – e três boletins diários oficiais.

O que você acha da placa/movimento Arduino, do hardware livre, dos dados cidadãos distribuídos e de ferramentas de visualizações como Pachube?

Costumo dizer que assim como a internet foi tomada dos militares pela vida social, nós precisamos de uma “arduinização” da internet das coisas. Precisamos sair do M2M (machine to machine) das grande empresas e indústrias e promover um uso social, uma apropriação social dos objetos e dotá-los de capacidades infocomunicacionais de “baixo para cima”. Só assim produziremos sentido com os objetos e sobre os usos e os dados gerados a partir desses objetos. Isso foi mais ou menos respondido mais acima.

(duas perguntas originais respondidas em uma resposta)

Falando de mídia e de informação… A grande mídia tem entendido mesmo a informação geolocalizada, o jornalismo cidadão em tempo real, a nova pele de informação gerada pelo enxame cidadão?

O Henry Jenkins falava de storytelling transmedia. Eu estou falando nos últimos tempos da cidade transmedia. É exagero considerar a cidade física como uma nova plataforma informativa?

Cidade sempre foi um organismo artificial híbrido resultante de fluxos informacionais e comunicacionais. Sempre. Nesse sentido ela é desde sempre transmídia. Acho que devemos ter cuidado ao adotar esses termos. Pode ser interessante para ilustrar alguns aspectos, mas não podem ser vistos como conceitos definitivos e esclarecedores. Hoje temos novos fluxos comunicacionais, novas formas de circular, produzir e consumir a informação, e isso sob suas mais diversas modalidades. Mas as cidades são “cidades cyborgs” desde sempre, artefatos compostos de fluxos de coisas, pessoas, informações. Assim como hoje. O que vejo de novo é a possibilidade de ressaltar processos infocomunicacionais e politizar de forma global os destinos locais dos espaços urbanos.

Que importância tem o movimento ‘open data’ no funcionamento das cidades? Vamos ver visualizações com realidade aumentada sobre dados concretos de prédios, bairros, ruas e praças? Open data geolocalizado?

Acho que a realidade aumentada é interessante mas não deve ser uma forma única de narrativa do urbano. Ela não pode ser um instrumento que diminua a complexidade do real ao revelar toda a verdade sobre objetos, monumentos, praças, etc. Em muitos casos a “realidade aumentada” diminui a complexidade do vivido.  Escrevi recentemente um artigo para o Museu do México mostrando esse ponto. Há experiências interessantes de realidade aumentada (artísticas e políticas) e outras bem comerciais como achar pontos comerciais, de metrô ou ônibus, ou informações turísticas. Não acho que isso seja verdadeiramente inovador. É útil, mas precisamos de mais do que o útil, sempre.

Conceitos como inteligência coletiva (Pierre Lévy) ou enxame (Kevin Kelly) parecem ter mais sentido na nova era da Internet móvel. O movimento 15M da Espanha (Indignados) está desenvolvendo muitas ferramentas de real time+inteligência coletiva. A última, #Voces25S para visualizar em um mapa graças a hashtags mensagens…

Sim, como falei, são as potências geradas pelos três princípios da cultura digital e que permite a emergência de vozes, a sua circulação, o compartilhamento e, por conseguinte, a transformação social, econômica, cultural, política.

(duas perguntas originais respondidas em uma resposta)

Por outro, lado as dinâmicas do movimento do software livre e do open source também estão poluindo as cidades. Colaboração, co-criação, processos bottom-up… estão sendo usadas em processos de construir cidades….  Que outras dinâmicas do mundo do software livre (ou das redes em geral) estão indo para as cidades físicas?

Os movimentos como o 15M – Occupy tem criado novos paradigmas de cidades. Estamos falando de cidades P2P, cidades open source, cidades copyleft …  Como vamos lembrar / estudar de aqui a uns anos estes movimentos que misturam ocupações de praças com processos de redes?

Devemos evitar esses termos, ou usá-los apenas de forma bem caricatural, para ilustrar mas não para compreender os fenômenos. Não acho que haja “cidade open source”, “revolução 2.0”, “cidade P2P” etc. O que há é uma relação híbrida entre agentes humanos e não-humanos com as novas ferramentas infocomunicacionais e em rede. Isso não é pouco e compreendo quando você adiciona esses termos a conceitos antigos como “cidade”, “revolução” etc. É para ressaltar essa novidade. Ok, mas precisamos ter cuidado para não sermos levados a erros frequentes de purificação. Escrevi recentemente um artigo questionando isso (Things (and People) are the Tools of the Revolution), sobre a primavera árabe. Uns afirmavam ser essa uma “revolução 2.0” e outros que não, que isso não era possível pois era uma “revolução das pessoas”. Ora ambos estavam incorretos. Não há uma coisa nem a outra, mas sempre processos híbridos. Não foi uma revolução do Facebook ou do Twitter, não foi uma revolução de pessoas: foi uma revolução em que a associação entre Twitter, Facebook, youtube, e pessoas foram fundamentais nesse momento. Isso pode não acontecer no futuro pois não há “essência” revolucionária nessas redes sociais, assim como não há ação humana sem acoplamento aos mais diversos artefatos (pedras, panfletos, bombas, machado, celulares, computadores, redes sociais…). Cabe a nós, a cada momento, revelar as associações. Nesse caso específico as redes sociais foram agentes importantes nos levantes políticos. Pode não ser assim em outro lugar ou momento. Revoluções, cidades sempre foram movimentos e constituições híbridas. Devemos reforçar o entendimento das características dos novos artefatos que em muito diferem dos anteriores pela sua potência global infocomunicativa. Mas não é hoje que esse hibridismo se constrói.

Falando do Brasil. Como você acha que os brasileiros, sempre criativos e sociais, vão encarar esta nova era da Internet móvel e da sociedade conectada?

Acho que a cultura brasileira, uma cultura da gambiarra, do improviso, do jeitinho, tem tudo para tirar proveito da cultura digital. Mas temos que ir além do estereótipo do brasileiro cordial, criativo, alegre e social. Precisamos de educação, de política de informação, de igualdade social que garantam acesso para todos, que entendam as potencialidades estratégicas para o país dessa era da informação digital em rede e que, principalmente, não tenham uma posição paternalista que visa ensinar ou doutrinar os menos privilegiados. Acho que é da gambiarra e do improviso que nascerá, junto com políticas públicas de comunicação, educação e infraestrutura (e os respectivos investimentos consistentes), uma cultura brasileira digital que possa, em primeiro lugar, melhorar as condições de vida da população e, quem sabe, mais adiante, ser impulsionadora da cultura digital mundial. Precisamos desenvolver conteúdo, softwares, hardwares, incluir e garantir constitucionalmente a liberdade e a autonomia na rede, como pretende, por exemplo, o Marco Civil da Internet Brasileira. Temos que aprovar esse Marco mais rapidamente possível. Ele é único no mundo e um exemplo a ser seguido. Nós, brasileiros, somos hard users das redes sociais, somos os que ficam mais tempo conectados à internet, produzimos discussões interessantes sobre a cultura proprietária dos bens simbólicos (copyright), desenvolvemos experiências interessantes com softwares de fonte aberta, criamos uma cultura digital com poucos recursos nas periferias (música, vídeo, literatura…). Assim, precisamos potencializar o que temos de mais interessante na constituição do povo brasileiro com políticas públicas inteligentes, antenadas com o espírito da época que garantam a liberdade de informação e o acesso a todos.

Para finalizar. Comenta um possível futuro utópico (falando em tecnologia) do mundo e um futuro distópico.

Nenhum dos dois existem. Só existe o presente, e temos que fazer agora para que o que venha pela frente seja sempre a batalha de visões sobre o melhor dos mundos contra o pior dos mundos possíveis. O que interessa é que tenhamos garantido a liberdade do debate e a justiça nas escolhas resultantes desses debate. Utopia e distopia são só nomes para dizer aquilo que queremos ou não queremos. A discussão vem antes. A multivocalidade, a visibilidade de culturas diferentes, a comunicação global que a cultura digital nos propicia podem nos ajudar a construir esse espaço global de conversação e resolver os problemas urgentes do planeta e da convivência nos espaços urbanos. Mas paro por aqui pois acho que já estou sendo utópico.

 

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