Desenhando espaços híbridos abertos
Artigo de Bernardo Gutiérrez (@bernardosampa), fundador de Futura Media.
A realidade física não existe. O mundo virtual também não. Agora uma frase-explicação: apenas existem os espaços híbridos, a mistura do off e on, do digital e do analógico. Nesta nova realidade híbrida as dinâmica do mundo digital contagiam as inércias dos territórios físicos. E o mundo físico é uma peça vital para construção de ambientes digitais. A fusão de ambos constrói um novo espaço, uma quarta dimensão que havia intuído Michel Foucault com sua heterotopía ou Edward W Soja com seu terceiro espaço. As redes digitais – que alguns chamam de redes sociais – se entrelaçam com as comunidades do mundo físico. E ambas se retroalimentam. As interações digitais, os conteúdos compartilhados e/ou geolocalizados, os streamings, transformam o espaço físico em um novo território emergente, conectado e híbrido.
A imagem que abre este post pertence ao projecto Dream Hammar, do estúdio Ecosistema Urbano. Foi realizado na cidade de Hamar, na Noruega. E é, na minha opinião, um caso exemplar de estratégia de criação de espaços híbridos. Como mostra o gráfico, a construção da praça foi baseada no diálogo e co-criação de plataformas digitais e no território. O laboratório digital dialoga com o laboratório físico; as ações urbanas se unem ao conteúdo acadêmico digital criado para a ocasião. Dream Hamar é uma realidade híbrida. Construiu comunidade. Trabalhou em rede.
Existem algumas regras para construir espaços híbridos? Eu acho que não existem princípios definitivos nem regras absolutas e sim alguns pontos que se devem entender. Decidi remixar três textos que considero brilhantes sobre o tema. Eles servem tanto para criar um site quanto para construir uma praça. Alguns pontos são contribuições próprias. O primeiro texto é Princípios do Design do Governo britânico. O segundo, o Urban Versioning System 1.0.1 (UVS) do escritor Matthew Fuller e do urbanista/designer Usman Haque. O terceiro, 12 princípios para uma arquitetura da participação, de Rahul Srivastava e Matías Echenove, do estúdio Airoots.
1. Comece com necessidades (necessidades dos usuários, não do Governo). O processo do design deve começar identificando e considerando as necessidades dos usuários. É fundamental encontrar mecanismos inclusivos. Além disso, encontrar uma forma eficiente de alcançar um objetivo comum é mais importante do que o próprio objetivo.
2. Faça as coisas abertas. Devemos compartilhar o que temos o mais rápido possível. Com os colegas, com os usuários, com o mundo. Compartilhe o código, compartilhe projetos, compartilhe idéias, compartilhe intenções, compartilhe as falhas. Quanto mais olhos estiverem em algo, melhor será. A abertura do código é necessária para uma verdadeira participação ativa da comunidade.
3. Comunique-se. Comunique-se sempre, comunique-se em tempo real. Todos devem ter acesso às últimas informações. Ouça o que diz a comunidade e incorpore de forma que se possa ser modificado/ajustado ao longo do caminho.
4. Crie processos. Esqueça dos produtos e até mesmo dos serviços. Esforce-se apenas para construir as condições favoráveis para o surgimento de um processo compartilhado, aberto e criativo. Transformar um objeto – web ou praça – um processo requer uma mudança absoluta de atitude. O conteúdo do projeto será fornecido pela rede e/ou comunidade. Concentre-se em garantir uma infra-estrutura/arquitetura que incentive a participação e em transmitir uma atitude que garanta processo aberto.
5. Construa mais do que design. Pare de mistificar o design e o planejamento. Aposte pela construção imediata e coletiva. Vivemos na época do prototipado, do mãos à obra, do trabalho coletivo, das versões em beta (não definitivas). Estamos entrando na era dos makers: precisamos de muitos fazedores e não tantos pensadores. Apenas avançaremos remixando learning by doing (aprenda fazendo) desde o coletivo.
6. Compartilhe. Não se sinta o dono do projeto. Ou melhor, deixe que os outros sintam-se também proprietários do projeto. O objetivo é ter as melhores soluções para todos, não soluções individuais.
7. Remixe. Não é preciso inventar a roda novamente. Descubra o que está funcionando em outros lugares e adapte-o às necessidades locais e atuais. Que o copyleft guie seus passos. Se alguém está fazendo o mesmo, não repita trabalhos, incorpore-lo em sua rede. Copie, remixe, para incentivar a comunidade.
8. Construa links. Entenda o link não apenas como algo físico que mantém várias coisas conectadas. O link é mais conceitual que material: é o lugar onde as forças se mediam e se enfrentam. O link é onde as partes se unem, se propagam e onde se transformam as tensões. As interfaces, os protocolos, as telas digitais são links. Os links são pontos de entrada para apoiar, contrastar ou até mesmo para comparar sistemas.
9. Faça simples. Entenda a frase mítica do publicitário Leo Burnett: ’make it simple’. Fazer que algo pareça simples é fácil: fazer que algo seja simples de usar é mais difícil, especialmente quando os sistemas de base são complexos. A simplicidade torna algo acessível. Por isso, você deve construir coisas/espaços o mais abrangente e legível possível.
10. Crie um protocolo aberto. A chegada da era 2.0 aposentou os portais de informação centralizada e vertical. Então, criar plataformas, mais horizontais e participativas tornou-se o objetivo. Construir plataformas, ainda é uma boa idéia. Mas na era do pró-comum e das novas conexões P2P entre pessoas, coletivos, empresas, governos, o objetivo é criar um protocolo replicável, aberto e livre. Em informática, um protocolo é uma convenção que possibilita uma conexão, comunicação, transferência de dados entre dois sistemas. Um protocolo é a regra que governa a sintaxe, semântica e sincronização da comunicação. Uma web/praça terá sucesso na medida em que seu conjunto de ferramentas, metodologia, infra-estrutura e de conteúdo sejam facilmente replicáveis. O How to occupy da plataforma Take the square tornou-se um protocolo aberto, compartilhado, remixado e multiplicado com grande sucesso.
11. Seja flexível. Não imponha uma forma e um processo. Melhor: adapte seu design às diferentes realidades. Que o responsive Web Design, que usa estruturas e imagens fluidas para adaptar o site para o ambiente do usuário e diferentes plataformas, te inspire. E não só em ambientes digitais. Entregue-se ao combinado de espaços abertos adaptáveis, arquiteturas flexíveis e materiais maleáveis.

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